Da Série: poderia estar em um manual de equipe
Autoria1: Tote Martins2
Revisado e publicado em 15 de Julho de 2026, por:
Roger Leandro Zanelatto Lüdcke3/Lúdikos4
“É realmente duro para um pai receber o filho de volta do acampamento chorando e dizendo que quis fugir porque seu conselheiro foi mau. O pai fica indignado com o acampamento. Tenho certeza de que levará cerca de um ano de oração e conversa para convencê-lo a voltar no ano que vem. O conselheiro parece não entender que uma única semana pode envenenar a mente de um jovem contra a Igreja e o Cristianismo. Isso é sério demais para eu arriscar meu filho nas mãos de um conselheiro irresponsável.”
Esta declaração contundente, tirada da avaliação de um pai, toca no ponto central da questão: quando a disciplina é mal administrada, ela pode causar danos profundos.
Seja você um conselheiro novato ou veterano, este material vai relembrar suas responsabilidades e apresentar significados renovados sobre o que é disciplinar — algo benéfico tanto para o acampante quanto para o equipante.
O que é disciplina e qual o seu propósito?
Em seu livro “Socorro! Sou Equipante de Acampamento!”, H. Norman Wright define: “Disciplina é aprendizado. É o processo pelo qual as pessoas aprendem o que é aceitável, desejável e agradável para todos.”
A disciplina também pode ser vista como um conjunto de métodos para desenvolver o caráter e extrair o melhor de cada indivíduo. Ela não se resume a punir a quebra de regras, mas a encorajar a criança a se tornar uma influência positiva na sociedade.
Em suma: a disciplina não é contra a criança, é pela criança.

Ela é um esforço para motivar o acampante a ter um bom comportamento. Essa motivação deve nascer do relacionamento com o conselheiro, do convívio com os colegas e do desejo de viver novas experiências — e não de barganhas, ameaças ou subornos.
A pergunta-chave que você deve se fazer é: “Como eu, como conselheiro, posso ajudar este acampante a aprender?”
Disciplina não deve ser punição, mas uma oportunidade de aprendizado. É o desafio e o privilégio de treinar uma criança.
Disciplina é Discipulado
Cada ato disciplinar é uma oportunidade de discipular. É um passo no processo de nutrir o acampante para que ele se pareça mais com Jesus Cristo. Quando compreendemos isso, o custo do relacionamento acampante-conselheiro se torna pequeno diante do valor eterno da missão. A disciplina deixa de ser vista como algo negativo e passa a ser encarada como uma ferramenta de transformação rumo à maturidade em Cristo.
O Poder da Visão e da Expectativa
Howard Hendricks, em seu livro “Como Motivar”, conta sua experiência na infância. Sua professora do 5o ano não respeitava os alunos e o via apenas como um “criador de problemas” — chegando ao absurdo de amarrá-lo na cadeira. Hendricks comenta: “Eu passei do 5o ano por razões óbvias”.
No primeiro dia do 6o ano, ele conheceu seu novo professor, que lhe disse: “Ah! Então você é o Howard Hendricks? Ouvi coisas terríveis a seu respeito… mas não acreditei em uma só palavra.” Hendricks relembra: “Aquele foi o primeiro homem que acreditou em mim”. Naquele ano, sua atitude mudou completamente.
Como você enxerga o acampante?
- Você o vê como um problema ou enxerga o seu potencial?
- Você o vê como ele é hoje, ou como ele pode se tornar?
Muitas vezes, permitimos que as primeiras impressões fiquem gravadas. Se um acampante age mal no primeiro dia, logo recebe o rótulo de “chato” ou “problema”. Nós nos prendemos a esse rótulo ou fazemos o esforço de enxergá-lo à luz do seu potencial? Diz o ditado: se você disser a uma criança repetidamente que ela é incapaz, ela acabará acreditando.
Respeito: Uma via de mão dupla

Não importa apenas como você vê a criança, mas como você a trata. Exigimos respeito dos acampantes, mas nos esquecemos de que o respeito é uma via de mão dupla.
Muitas vezes, conselheiros dão ordens sem usar a palavra “por favor”. Do mesmo modo, um simples “obrigado” quando o acampante realiza uma tarefa pode transformar o relacionamento. Sem respeito mútuo, a relação não se desenvolve.
Dicas Práticas para o Momento da Disciplina
O principal fator na disciplina não é apenas o que você diz, mas como diz. A seguir, adaptamos algumas orientações do capítulo sobre “Confrontação” do livro Você e Eu (Gerard Egan):
- Discipline com empatia e compreensão: Mostre que você entende o contexto e os sentimentos dele na hora da falha. Quando a criança percebe que é ouvida, a conversa flui melhor. Disciplinar sem tentar entender a pessoa torna o processo ineficiente ou destrutivo.
- Seja flexível e tolerante: Evite afirmações categóricas ou absolutas. Lembre-se de que podem existir fatores desconhecidos e que você não é infalível. Mostre-se aberto para ouvir a versão dele antes de fechar sua conclusão.
- Saiba a sua real motivação: Por que você está disciplinando? É para realmente ajudá-lo ou para desabafar sua frustração? Se a motivação for vingança ou desabafo, o acampante perceberá e o relacionamento será quebrado.
- Demonstre cuidado e apoio contínuo: A disciplina mostra que você se importa. O acampante precisa saber que, após a correção, você continuará ao lado dele para apoiá-lo na mudança de atitude. Caso contrário, o momento parecerá apenas uma punição fria.
- Seja gradual (não acumule falhas): Não tente corrigir vários comportamentos de uma só vez nem guarde uma lista de erros para “despejar” no acampante. Isso destrói a autoestima e o relacionamento.
- Considere o estado emocional e físico: Não discipline uma criança quando ela estiver exausta, com fome ou abalada por outro motivo não relacionado ao fato. Espere que ela esteja com o controle de suas faculdades mentais.
- Seja específico: Evite acusações genéricas e vagas. Aponta claramente o comportamento errado e ofereça alternativas práticas de como ele pode melhorar.
- Alinhe a linguagem não verbal com as palavras: Feições sérias e gestos dizem muito, mas precisam ser acompanhados de explicações claras. O acampante não lê mentes.
- Use uma linguagem descritiva (não julgadora): Descreva o fato em si. Evite rotular, acusar, ironizar, gritar ou usar sarcasmo. Linguagem acusatória coloca a criança na defensiva.
- Discipline visando o relacionamento: Corrigir é um sinal de que você deseja continuar caminhando ao lado do acampante para ajudá-lo a crescer.
Atenção ao “Efeito Mãe”: Muitos conselheiros evitam disciplinar por medo de “perder” o carinho do acampante ou por se sentirem mal ao ver a criança chateada. Psicólogos chamam essa relutância de “efeito mãe”. Lembre-se: corrigir com amor é uma oportunidade de crescimento para ambos.
Princípios-Chave para a Aplicação da Disciplina
1. A Abordagem em 4 Passos
- Passo 1 – Regras Claras: Anuncie antecipadamente as regras e horários do acampamento. Dê tempo para que absorvam (exemplo: avise 15 minutos antes de apagar as luzes do quarto, sem pegá-los de surpresa).
- Passo 2 – Chamada Pessoal: Se houver infração, chame o acampante pelo nome com educação. “João, combinamos de desligar as lanternas às 21h. Você pode desligar a sua, por favor?”
- Passo 3 – Aproximação Física: Se a atitude persistir, vá até ele, ponha a mão no seu ombro e relembre o combinado com calma.
- Passo 4 – Conversa Reservada: Se o desafio continuar, chame-o de lado para uma conversa em particular, aplicando as dicas de respeito e empatia.
2. Espere obediência
Ao fazer um pedido, aja com a expectativa natural de que ele será atendido. Sua firmeza e postura confiante encorajam a cooperação.
3. Peça, não ordene
Convide à cooperação. Pedir costuma gerar reações muito melhores do que dar ordens autoritárias como um sargento.
4. Zero punição física ou emocional
A punição física é crime e gera danos emocionais graves. Além disso, deixe a criança ser criança: não exija dela a maturidade ou os padrões que você exige de si mesmo.
5. Garanta que ele entendeu o erro
Antes de aplicar qualquer medida, certifique-se de que o acampante compreendeu o que fez de errado. Uma ótima pergunta é: “João, me ajuda a entender o que aconteceu para você bater no Pedro?”. Isso permite que ele expressar seu ponto de vista e ajuda você a entender a necessidade por trás da ação.
6. Descubra a causa do comportamento
O mau comportamento geralmente é sintoma de uma necessidade não suprida: busca por atenção, desejo de afirmação, sensação de inadequação ou falta de afeto.
7. Traga o acampante para o seu lado
Se um acampante é um “líder negativo” ou costuma atrapalhar os momentos do grupo, dê a ele uma responsabilidade! Peça para ele ajudar a liderar ou organizar uma atividade. Transformar um influenciador em parceiro costuma mudar totalmente a atitude dele.
8. Não discipline preferências pessoais
Diferencie mau comportamento de gosto pessoal. (Exemplo: o conselheiro ficou irritado com os apitos feitos com folhas de grama que os acampantes criaram. O barulho o incomodava, mas os meninos não estavam quebrando nenhuma regra. O conselheiro precisará lidar com sua própria paciência).
9. Faça o acampante participar da solução
Especialmente com os mais velhos: após conversarem sobre a falta cometida, dê alguns minutos para que ele próprio sugira uma forma de reparar o erro. Frequentemente, a solução proposta por eles é muito consciente e gera responsabilidade pessoal.
10. Discipline de perto e em particular
A eficácia da disciplina diminui com a distância. Discipline “ao alcance dos braços” e a sós. O acampante perceberá que você é por ele, se você não fizer dele um espetáculo em público.
11. Dê o máximo de responsabilidade possível
Dar tarefas demonstra confiança, melhora a autoestima da criança e fortalece o vínculo entre conselheiro e acampante.
12. Substitua o “Não” por frases positivas

Em vez de dizer “Não faça isso”, “Pare”, “Você não pode”, prefira:
- “Vamos tentar de outro jeito?”
- “O que você acha de fazermos assim…?”
- “Apreciei muito o comportamento do João hoje.” (Elogiar o bom comportamento em grupo incentiva os outros sem precisar dar broncas).
13. Às vezes, ignore pequenas distrações
Se a atitude não estiver oferecendo risco nem machucando ninguém, ignore. Muitas vezes, pequenos maus comportamentos buscam apenas atenção; ao ignorar, o comportamento cessa.
14. Seja consistente
Se você muda as regras a todo momento ou disciplina apenas quando está de mau humor, o acampante fica confuso e perde a confiança em você.
15. Corrija a atitude, não a personalidade
Se o acampante é muito comunicativo, isso é um traço da personalidade dele. Discipline o fato de ele estar falando na hora do estudo bíblico (comportamento inadequado no momento), e não o fato de ele ser falante.
16. Mantenha a calma
Se os acampantes perceberem que conseguem te irritar, eles usarão isso para se divertir. Se sentir que vai perder a paciência, dê uma pausa, respire e peça ajuda a Deus em oração.
17. Conecte a consequência ao ato
Sempre que possível, faça com que a medida disciplinar tenha a ver com a falta. Se ele fez bagunça e sujeira no refeitório, a consequência natural deve ser ajudar na limpeza após a refeição.
18. Agilidade e imparcialidade
A correção deve acontecer o mais próximo possível do momento do erro. Além disso, seja imparcial: nunca beneficie um acampante em detrimento de outro.
19. Aplique o Trio “JFA”
- Justiça: Importe-se verdadeiramente com cada acampante de forma individual.
- Firmeza: Entenda que corrigir é um ato de amor e aprendizado.
- Amizade: Aponte caminhos e modere tudo com afeto e proximidade.
Conclusão
Entre seis e dez acampantes são confiados a você durante uma semana. A maneira como você os trata e os disciplina pode impactar a eternidade deles e a percepção que terão do amor de Jesus Cristo. Não há privilégio maior no mundo — por isso, a disciplina jamais deve ser exercida de forma descuidada.
“Ensine seus filhos no caminho certo, e, mesmo quando envelhecerem, não se desviarão dele.” Provérbios 22:6 – Nova Versão Transformadora
“
- Traduzido e adaptado do original “The Counselor’s Role in Camper Discipline”, de Stan White. Seminário ministrado em 1998 por Tote Martins durante a Convenção Nacional da ABRAC – Associação Brasileira de Acampamentos). ↩︎
- Tote Martins – Lado a lado com a trajetória como teólogo e educador ao ar livre, fui diretor de alguns acampamentos no Brasil, dedicando os últimos 29 anos à frente do ministério Abrigo Aventura. Essa jornada tem sido pautada pelo discipulado e pelo treinamento de líderes por meio da educação ao ar livre, utilizando a natureza como ferramenta estratégica para o alcance da juventude e a prática da Palavra de Deus. Poder servir ao lado de amigos como o Roger em boas oportunidades não foi apenas um privilégio, mas parte de um aprendizado contínuo com aqueles que são, para mim, exemplos de integridade e serviço ao Reino. ↩︎
- Roger Leandro Zanelatto Lüdcke: Bacharel em Teologia, com complementação de estudos em Gestão de Equipe, Pós-graduado em Pedagogia Empresarial e Educação Corporativa. É Coordenador dos Serviços de Educação Informal para a América Latina do TeachBeyond. Professor de Liderança e Ministério em Escolas pela Faculdade Luterana de Teologia e Gestor da Lúdikos, trabalhando com aprendizagens vivenciais e acampamentos desde 1996. ↩︎
- Lúdikos ↩︎